Andrews 29 / 10 / 2021

Seja bem-vindo a Yara!

Publisher: Ubisoft
Developer: Ubisoft Toronto
Gênero: FPS, Ação
Plataformas: Xbox One, Xbox Series S/X, PlayStation 4, PlayStation 5, Amazon Luna, Google Stadia, Microsoft Windows

Far Cry é uma das franquias da Ubisoft que ainda sobrevive bem. Mesmo com uma certa crítica, sobrevive graças aos fãs - sim eles existem - mas ainda sim é uma das últimas franquias da Ubisoft a tentar se modernizar. Ao contrário de Assassin’s Creed e Watch Dogs, que estão tentando explorar novos caminhos para renovar a base de fãs, Far Cry 6 ainda usa muito dos conceitos e mecânicas de seus antecessores, evoluindo pouco. Essa talvez seja a maior crítica.

Contudo, mesmo copiando os antecessores e trazendo velhos defeitos, conseguimos encontrar muitos elementos positivos. Se não fosse assim, como justificar quase 20 anos de sucesso?!

Então joga bandoleira no fuzil zero meia. Sintoniza na Buena Vista Social Club e dá uma baforada no charuto.

Seja bem-vindo a Yara!

Você é Dani. Uma órfã, com algum treinamento militar, cujo objetivo é fugir de um governo totalitário na ilha caribenha de Yara.  A ilha - que faz o paralelo óbvio com Cuba - tem como líder militar o fascista Anton Castillo.

Anton escraviza parte dos moradores para cultivar o Viviro, um ingrediente que segundo o próprio Anton, seria a cura para o câncer, mas sem nenhuma comprovação científica. Cada fascista com sua cloroquina...

Giancarlo Esposito da vida a Anton, cuja relação com seu povo contrasta a relação que tem com seu próprio filho, a quem pretende transformar em seu sucessor.

Gráficos

Os gráficos estão um pouco mais polidos, mas basicamente no mesmo nível dos outros jogos. A quantidade de assets repetidos é absurda, tanto em texturas quando em NPCs. É feio? Não, mas certamente você vai ter vários deja vu caso tenha um olhar mais atento. Isso é algo até compreensivo na indústria dos games nos dias de hoje, visto que as empresas trabalham seus jogos praticamente em escala industrial.

Em contraponto a isso, o mapa não é gigantesco, mas é bem preenchido. Mesmo sendo uma ilha tropical, cada ponto do mapa tem seu bioma, o que deixa a exploração bem mais interessante. Em matéria de cenários e ambientação, a Ubisoft sempre é certeira. Tudo muito intuitivo.

A versão que a Ubisoft Brasil nos disponibilizou foi a de Xbox e joguei no Xbox Series X.  Mesmo com relato de muitos bugs, principalmente no PC, não tive problemas de bugs nesse console. Um defeito recorrente foi o crash em momentos aleatórios. Tive um crash logo depois de acidentalmente matar um cachorro... curioso.

Mas um crash freqüente era durante o salvamento do Quick Resume do Xbox. O Quick Resume é um recurso do Xbox Series X que permite pausar o jogo a qualquer momento e retomar do ponto exato onde você parou, mesmo que o console seja desligado.

Personagens e animações

Uma mudança importante para o apego ao jogo é o personagem Dani, eu joguei com personagem feminino, mas existe a opção de jogar com um personagem masculino. Dani, além de ter voz e aparecer nas cutscenes - o que não acontecia antes - tem muita personalidade e carisma, que a torna um personagem acima da média. Em sua progressão nos conectamos com ela em vários momentos, seja cantarolando uma música enquanto pilota ou sendo nossa voz indagando algum NPC de: “porque diabos precisamos resgatar uma zebra agora?”. 

Outra novidade é que quando entramos no acampamento a visão muda para 3ª pessoa. Isso é muito bom para termos mais tempo de tela com nosso personagem e ter como recompensa a visão do nosso set de roupas e equipamentos. Uma pena a movimentação dele ser tão robótica e tosca. Tão improvisada quando as gambiarras que fazemos na oficina.

A dublagem em inglês é muito acima da média, principalmente a de Giancarlo Esposito. Em português é a mesma equipe que já trabalha com a Ubisoft Brasil em outras franquias e muito boa também. A dublagem BR é um caso a parte, que tem evoluído muito rápido.

Seguindo a tradição de grandes vilões emblemáticos, Anton é um ditador implacável, e sua relação com seu filho só agrega a profundidade de sua história. Minha única critica é que ele poderia aparecer mais. Todas as ações que você faz na ilha são permeadas pelo poder e influência do ditador através de seus generais, que obviamente não tem o mesmo carisma e nem geram um desafio tão grande. Mas a imagem dele quando está em cena é poderosíssima. Um show à parte.

Clara e Juan, os companheiros revolucionários de Dani, são ótimos! Ambos têm visões distintas sobre a guerrilha e isso agrega em profundidade e motivação tudo que os cercam. Os guerrilheiros mais experientes sabem que a revolução é eterna e não termina com a deposição do governo. Já os mais novos, como Clara, são mais idealistas e crêem em uma visão mais romântica de que basta derrubar o governo fascista para ter um final feliz.

Jovens... sempre os jovens...

Os líderes militares de cada região poderiam ser derrotados de forma mais épica e marcante. Muitas vezes eles podem ser derrotados com um tiro apenas... e isso é bem anticlimático.

Gameplay

Estou com 30 horas de jogo e parece que estou chegando no final, mesmo fazendo muita side mission. Então eu calculo umas 40 ou 50 horas de jogo mais ou menos, talvez um pouco menos se você focar nas missões principais do jogo. E sim. Tem muita coisa para fazer! Como mencionei, o mapa é bem povoado.

Talvez isso seja usado para inflar o tempo de jogo? Talvez. Isso é ruim? Não necessariamente. Muito pelo custo beneficio. Tem gente que acha que com o preço dos jogos nas alturas, a entrega de horas jogadas deve ser compatível. Sim, eu sou um desses J

As animações são bem okay mas quando em 3ª pessoa, como disse antes, são bem toscas. Isso fica mais evidente no modo Coop e quando acessamos o acampamento.

As animações de recuperar energia, ao contrário, são muito boas. Em cada recuperação de vida é uma animação diferente, seja puxando uma bala do braço com alicate ou cauterizando uma ferida com um charuto. Tudo muito dentro do contexto. Tudo, ou quase tudo que eles fizeram do zero, parece muito bom.

Nas principais cenas de ação a música tem um papel importantíssimo. Tanto em dar o clima épico, quanto na ambientação e apreço que você vai cultivando pelo lugar ao se aprofundar na cultura local.

Armas

Desde o início o jogo te lembra da escassez e do improviso... ou gambiarra, como mencionado no jogo. As armas não poderiam ser diferentes, no começo as armas são péssimas, o que faz sentido, até por serem improvisadas e evoluídas com sucatas. Isso conversa muito bem com o enredo da história, mas quando você encontrar a arma que te agrada, isso acaba. Não existe mais estímulo para buscar e experimentar outras porque nenhuma será tão boa quanto a que você está usando. E isso é muito ruim, pois o tempo todo ele diz que é legal buscar novos itens, mas na prática você já tem o que é necessário e se vira bem com isso.

Além disso, a inteligência artificial é extremamente burra e facilita muito as coisas. Quando você encontrar um bom rifle e colocar silenciador nele, você será capaz de limpar acampamentos inteiros no stealth sem muito esforço, o que eu acho divertido, mas entendo quem critica. Talvez esse seja o motivo de terem nerfado o silenciador. Agora ele esquenta e perde a efetividade.

A parte de shooter propriamente dita é muito boa. Colocaram a mecânica de deslizar que deve ter vindo de algum Apex Legends da vida... o que dá mais dinamismo às cenas de ação e combate.

Os supremos são muito legais. Cada um tem um poder diferente e funciona como um especial. E cada vez que você ativa é um show a parte.

Veículos nesse jogo são um caso a parte. Dirigibilidade em primeira pessoa já é horrível e sem uma mecânica fluida para ajudar, dificulta muito. Talvez por isso ele não te obrigue tanto a usar veículos, já que conquistando bases obtemos vários pontos de fast travel, o que sem dúvida é um estímulo.

Minuto de silêncio para uma arma clássica em todos os Far Cry e que agora só existe, mas ninguém usa: #RipArco.

Progressão

Em matéria de progressão, tomar pontos de controle e bases, além de dar XP, liberar fast travel e abrir missões novas, tem um contexto interessante com a história, pois você está agregando mais pessoas à sua missão de depor o ditador.

Por outro lado, os elementos de RPG se tornam inúteis pois está tudo meio desequilibrado. Com XP você vai ficar mais forte, mas isso não aparece no gameplay. Tem zonas do mapa em que os inimigos são mais fortes, mas se você ficar um uma região só, por tempo suficiente para evoluir, você consegue limpar o mapa de uma forma bem fácil. Isso, para mim, cria um desequilíbrio.

A progressão da armadura ou roupas é horrível. Cada roupa traz uma habilidade que é inútil na prática. É tipo fornecer resistência a veneno, nadar mais rápido ou se aproximar de animais selvagens. Quando na verdade o que mais tem no jogo é TIRO! Então eu quero uma roupa que me proteja de TIRO. Meio obvio, não é?!

Missões secundárias

A questão aqui é o sentimento de recompensa. Nos postos e bases, como eu já disse, é muito boa, pois dão benefícios que você usa a seu favor. Além de ser missões bem rápidas.

Mas já os tesouros são demorados e dão recompensas baixas. Pescar, caçar, é muito fraco. Não dá praticamente benefício nenhum e parece só existir por existir.

As histórias de Yara são boas. Por conta dos personagens e seus aprofundamentos.

Conclusão

Far Cry 6 joga no seguro e acaba agradando sua base de fãs, é realmente muito divertido.  Mas em comparação com outros jogos que se arriscam mais, pelo mesmo valor... com um passe de temporada de 160 reais e micro transações internas, a Ubisoft poderia sim se arriscar mais.  O problema é que isso não parece prioridade no momento. Talvez esperar alguma promoção seja um bom conselho.

Mesmo assim o jogo está longe de ser ruim. Seus pontos fortes são a história que ele está contando e seu vilão. Mas que dessa vez é sustentada por uma protagonista poderosa, que pode perfeitamente ser lembrada e se colocar ao lado de grandes protagonistas que a Ubisoft competentemente produziu todos esses anos.

Nota: 7,0

Agradecimento especial a Ubsoft Brasil que nos enviou uma cópia do jogo versão Xbox Series.