Player Select 24 / 04 / 2017

Uma jornada de fé

By Ticiana Valle Esse texto pode conter spoilers do livro e do filme Já vou começar essa resenha explicando que, ao analisar uma obra baseada em outra, sendo duas mídias diferentes, é perda de tempo. O que faço é criticar se a adaptação consegue passar a ideia da obra original. Seu significado, o core. Pensando dessa forma, A Cabana cumpre seu propósito.

ENREDO

O filme conta a história de Mack, um homem calejado por uma infância dura que constitui uma família com sua esposa Nan e seus três filhos, Josh, Kate e Missy. Essa última sendo a principal peça no desenvolvimento da história. Ao levar os três filhos para acampar, o inimaginável acontece. A mais nova, Missy, é abduzida e assassinada. A partir daí, acompanhamos a jornada de Mack e sua família lidando com a perda da filha mais nova. Vou separar a história em dois atos, cada qual representando um momento chave da vida de Mack.

PRIMEIRO ATO - A PERDA DA FÉ

Mack sofreu com um pai alcoólatra e abusivo, além de uma mãe submissa. Aos poucos, essa vida sofrida o fez questionar porque Deus, tão poderoso, permite que seus filhos sofram tanto. Após sair de casa aos 13 anos, Mack segue sua vida, distanciando-se cada vez mais de seu relacionamento com Deus. Anos mais tarde, já casado e com 3 filhos, Mack tem sua fé testada mais uma vez. Ao salvar seu filho Josh de se afogar no lago, ele deixa a filha de 6 anos, Missy, sozinha. Não encontrando a filha mais nova onde a havia deixado, ele aciona a polícia só para, horas mais tarde, encontrarem sinais de que a menina foi violentada e assassinada em uma cabana na floresta. Nessa primeira parte, a fé de Mack é perdida e ele começa a culpar Deus por todas a mazelas do mundo e especialmente as dele. É bem interessante porque inúmeras vezes somos como Mack e isso cria uma relação emocional muito forte entre o espectador e o filme. Sam Worthington entrega uma atuação competente apesar de não excepcional, de um pai arrasado pela perda da filha mais nova e sofremos junto com ele aquele pesar chamado de A Grande Tristeza.

SEGUNDO ATO - RESTAURAÇÃO

Anos mais tarde, Mack está consumido pela tristeza e se afastando cada vez mais de sua família. Nesse momento, ele recebe uma carta convidando-o para passar o final de semana na Cabana. O que causa estranheza é a carta ter sido assinada por Papa. Não tinha como ser do pai dele, e o único outro Papa que ele conhecia era Deus, já que era assim que sua esposa o chamava. Confuso e sentindo que não tinha nada a perder, Mack vai para a Cabana esperando encontrar o assassino e assim ter sua tão desejada vingança. O encontro não sai como o esperado e Mack se vê diante de Deus em suas 3 formas: Pai (ou Mãe), Filho e Espírito Santo. Com a chance de sanar todas as suas dúvidas, Mack acusa Deus de negligente e castigador. Apenas para aprender que, não é fácil ser pai. Ainda mais de tanta gente. Nesse momento nos curamos junto com Mack. A cena do julgamento foi a única que no livro é mais impactante do que no filme. Ali, realmente somos colocados fora da zona de conforto, de julgado, assumimos o papel de julgador da maior entidade que existe no mundo. E aprendemos junto com Mack que, é fácil julgar quando não nos colocamos no lugar do outro. E que, para evoluir, precisamos enxergar o todo pela soma das partes. E o mais difícil ainda estava por vir. Para completar o processo de cura, precisamos perdoar nossos agressores, seguindo o exemplo de Jesus. Para mim particularmente, essa é a cena mais difícil de assistir. Quando Mack tenta perdoar o assassino/violentador de sua filha de 6 anos, e Deus o leva para buscar o corpo dela e conseguir um “fechamento” para seu sofrimento. Muita simbologia está nas entrelinhas desse momento. Com o Espírito Santo, Mack arranca uma parte que ele considerava muito bonita do seu jardim e a transforma em uma cova, sem saber ainda o propósito. Descobre que o projeto que Jesus estava trabalhando na oficina era um caixão para o corpo da filha. E com Deus, ele se desprende da dor que o cegava, enterrando a filha na parte mais bonita do jardim que na realidade é seu coração.

CONCLUSÃO

O filme é uma boa adaptação do livro e leva com competência para as salas de cinema os ensinamentos que o autor que passar para seus leitores. Octavia Spencer está sensacional na pele de Deus, entregando tudo que o livro promete e mais ainda. Meu conselho é, veja o filme e leia o livro. Na ordem que achar melhor, um não anula o outro. E o filme te instiga a ler o livro, ja que não é uma leitura fácil e o começo é bem maçante.

Crítica

A Cabana Paris Filmes

*As opiniões retratadas acima são de inteira responsabilidade do autor do texto, não retratando a opinião do site.